Conjunto Penal de Teixeira de Freitas inicia projeto de xadrez na EJA com foco em educação e ressocialização
No
último dia 23 de agosto de 2025, o Conjunto Penal de Teixeira de Freitas
(CPTF), no Extremo Sul da Bahia, foi palco do projeto: “O xadrez na escola: contribuições
do lúdico para o processo de ensino-aprendizagem dos estudantes da EJA no CPTF”.
Idealizado e conduzido pelo professor Erivelton Santos Rodrigues, o projeto utiliza o jogo de xadrez como ferramenta pedagógica, demonstrando
como regras aparentemente simples podem carregar significados profundos,
especialmente quando aplicadas em contextos desafiadores como o ambiente
prisional.
O professor Erivelton explica as regras do xadrez aos participantes.
A proposta une estratégia, concentração e educação
em um ambiente desafiador. Através do ensino do xadrez, o projeto visa promover
o desenvolvimento cognitivo, emocional e social de pessoas privadas de
liberdade, estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) dentro
da unidade prisional. Atualmente, cerca de 40 estudantes participam das
atividades, conduzidas com dedicação e sensibilidade pelo professor Erivelton,
em dois espaços distintos: o Pátio A e o Pátio B do CPTF.
A obra “Xadrez”, de Moritz Retzsch, retrata de maneira simbólica e detalhada a dinâmica estratégica do jogo, evidenciando a tensão e a interação entre os jogadores por meio da composição e da expressão artística.
Mas o que o xadrez tem a ver com ressocialização?
Muito mais do que um jogo, o xadrez é uma ferramenta
pedagógica poderosa. Ele ensina a pensar antes de agir, a lidar com
consequências, a respeitar regras e adversários. É um jogo silencioso, mas
profundamente formativo. E, para quem está privado de liberdade, representa
também um exercício de autonomia, disciplina e esperança.
O projeto de Xadrez teve início em 2024, sob a orientação do professor Erivelton. Acima, um dos tabuleiros utilizados nas atividades realizadas nos Pátios A e B.
O projeto tem como base o lúdico, mas trabalha com
seriedade valores como respeito, estratégia, paciência e autoconhecimento.
Esses pilares são essenciais no processo de ressocialização, pois ajudam
a reconstruir vínculos com o coletivo e com o próprio projeto de vida de cada
interno.
Além disso, a proposta se entrelaça com os objetivos
da EJA no contexto prisional: reintegrar pela educação. Em vez de apenas
transmitir conteúdos, o ensino se torna uma prática de acolhimento, escuta e
valorização do ser humano. O xadrez, com sua história milenar, soma-se a essa
missão como um novo idioma para ensinar e aprender.
As partidas acontecem regularmente nos dois espaços
escolares da unidade — o Pátio A e o Pátio B — respeitando a organização
dos grupos e as normas de segurança da instituição. Cada partida tem sido uma
lição em si, e a competitividade saudável tem criado uma atmosfera de respeito
mútuo e superação.
E a jornada ainda reserva um momento especial: está
prevista uma grande final entre os destaques do Pátio A e do Pátio B,
celebrando não apenas a habilidade no jogo, mas o comprometimento com o
aprendizado, o esforço e a evolução individual de cada participante. A
expectativa é que essa final se torne um marco simbólico do projeto,
incentivando novos ciclos e valorizando o percurso dos alunos.
Mais do que resultados mensuráveis, o projeto busca
deixar marcas profundas — nas atitudes, nos pensamentos e nas escolhas futuras
de cada estudante. A ideia é também servir de inspiração para outras
unidades prisionais, mostrando que educação e cultura podem (e
devem) caminhar juntas em todos os contextos — inclusive, e especialmente,
dentro dos presídios.
Porque ali, onde tantas vezes a esperança se
esconde, uma partida de xadrez pode ser o primeiro passo de uma nova
trajetória.
No fim das contas, cada movimento no tabuleiro é
uma pequena lição: avançar com cuidado, recuar quando preciso, pensar no
coletivo, respeitar limites e aprender com o outro.
E quem diria que o som leve das peças se movendo pudesse dizer tanto em um
lugar onde o silêncio, por tanto tempo, falou mais alto?
Que esse projeto continue sendo não apenas uma
iniciativa educativa, mas uma ponte entre o erro e o recomeço. Entre a culpa e
o perdão. Entre a prisão e a liberdade interior.
Porque, no xadrez como na vida, sempre é possível
recomeçar — com uma jogada de cada vez.


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